“Conseguirmos ter a situação da Covid-19 controlada como temos hoje no concelho de Benavente, foi a melhor recompensa do trabalho de todos os que estamos na Protecção Civil…” salienta Carlos Coutinho, Presidente da Câmara de Benavente

7 Maio 2020, 21:02 Não Por João Dinis

Cerca de mês e meio depois do primeiro caso no concelho de Benavente, que se registou a 16 de Março, o Presidente da Câmara Municipal de Benavente, Carlos Coutinho, fez-nos um balanço do que podemos chamar “a primeira parte” da chegada do covid-19 ao seu município e a Portugal.

Perante uma situação completamente desconhecida para todos, dos profissionais da saúde, à segurança, foi tomada a opção por parte do Município de Benavente, de activar de imediato um grande plano de Protecção Civil, envolvendo diversas valências, com mais de uma centena de pessoas envolvidas.

Numa longa conversa em que foram abordados diversos temas do máximo interesse para Benavente e não só, iniciamos este primeiro bloco com Carlos Coutinho a realizar um pequeno balanço dos primeiros dois meses do Covid-19 no concelho de Benavente, sendo que este nos começa por nos referir que o “balanço é um balanço de alguém, como todos nós, que não estávamos minimamente, nem preparados nem era nossa expectativa que fossemos confrontados com uma pandemia que teve esta implicação ao nível da vida das pessoas, da nossa vivência, ao nível da economia e do ponto de vista social”, destacando que “obviamente que estamos a falar das questões de saúde e as medidas que foram tomadas tiveram como objectivo proteger a saúde das pessoas”, acrescentando ainda que “este percurso de mais de mês e meio, foi um percurso de grande dedicação por parte de todos nós, das pessoas individualmente e daqueles que têm responsabilidades também.”

Se dúvidas restassem sobre a importância da imediata acção por parte da Protecção Civil Municipal, no combate e disseminação da pandemia, o Presidente da autarquia, e responsável máximo por esta, começa por afirmar que, “nós aqui na Protecção Civil, e eu relembro que nós de imediato acionamos o plano municipal de emergência, no sentido de estruturarmos a nossa acção, num objectivo que creio que foi importante, que foi de fazermos planeamento e planear aquilo que devem de ser as nosssas acções antes das situações acontecerem, direi que desse ponto de vista da operação o balanço que temos que fazer é um balanço extremamente positivo, da capacidade que todos tivemos de agir face às questões que nos foram colocadas ao longo deste tempo.”

Digamos que o momento inicial foi para nós difícil, não só pelo facto de ainda não estarmos devidamente integrados com o que é conviver com o covid-19, mas também porque tivemos no município uma situação muitíssimo difícil, como foi aquela que todos conhecemos”, refere Carlos Coutinho sobre os primeiros dias, com o conhecimento de inúmeros casos positivos na fábrica Marinhave em Santo Estevão, prosseguindo salientando que no seu entender, ”tivemos uma acção que permitiu conter toda este foco de propagação, e hoje vivemos uma situação muito mais tranquila, em que os casos nas últimas semanas tem sido esporádicos, temos a lamentar obviamente o falecimento de duas pessoas, sendo que no país já são mais de mil, é sempre um facto que todos nós obviamente lamentamos, mas que aconteceu.”

Ao dia de hoje, a situação no concelho de Benavente está controlada, muito por força o plano de acção colocado em prática pelo município, algo que o Presidente da Câmara de Benavente confirma, “creio que daquilo que poderíamos ter no nosso município como uma situação, digamos de grande gravidade, ela conseguiu-se conter e hoje vivemos uma situação tanto quanto podemos dizer, de normalidade face àquilo que é a incidência desta epidemia com todos os problemas que ela nos trouxe à nossa vida e portanto creio que o balanço que fazemos é de que estamos hoje mais adaptados, melhor preparados, mas que apesar de inicialmente também não fazermos ideia de como as coisas iam acontecer, eu creio que todo o serviço de protecção civil desempenhou uma função extremamente importante com sucesso, obviamente que cumpre-me a mim, enquanto Presidente de Câmara e responsável máximo da protecção civil, deixar uma palavra de profundo agradecimento a todos aqueles que ao longo destes muitos dias, aqui têm estado de uma forma dedicada, desde os bombeiros, às forças de segurança, a delegada de saúde, numa interacção perfeita entre todos, com o objectivo obviamente de podermos prestar o melhor apoio possível à nossa população, e destacava também aqui o Comandante Miguel Cardia, enquanto coordenador operacional desta missão, que creio que tem tido também um desempenho extraordinário.”

Esta foi uma situação que surgiu praticamente do nada, sem qualquer aviso, de um dia para o outro, o número de casos positivos de covid-19 em Benavente subiu em flecha, como que de um “8 a 80”, para o qual foi necessário bastante “sangue frio” e sobretudo muita calma ponderação e discernimento.
Nestes momentos é fundamental que quem tem responsabilidades de tomar decisões, tenha a capacidade de manter o discernimento, manter o sangue frio, manter a capacidade de tomar as decisões que melhor servem os objectivos de qualquer operação e esta é uma operação extremamente complicada”, começa por nos referir o Presidente Carlos Coutinho, que nos refere que todas as acções foram sempre realizadas “com toda a responsabilidade, incluindo na protecção civil, todos os elementos que aqui estão, nas várias áreas, saúde, segurança, Câmara Municipal, os senhores Presidentes de Junta também foram extraordinários” explicando que “numa primeira fase, nós determinamos o encerramento da unidade (Marinhave), houve uns dias que a unidade esteve fechada, até que pudéssemos apurar efectivamente o que se passava, e depois de termos os dados, foram impostas condições para que as pessoas pudessem trabalhar com o mínimo de segurança, quero dizer que há data do conjunto de trabalhadores que operavam na Marinhave, apenas 26 foram disponibilizados para que a empresa pudesse trabalhar”, “numa perspectiva que acho que todos compreendemos, esta pandemia fez com que grande parte de nós ficássemos confinados nas nossas casas mas há áreas que têm mesmo que trabalhar, nomeadamente a alimentação que nos foi chegando, nunca tivemos qualquer problema, se nos recordarmos dos primeiros momentos foram momentos de sobressalto, creio até de algum pânico por parte das pessoas, todos nos recordamos do que foi a afluência aos hipermercados, nos primeiros dias, as pessoas não conheciam o problema e com a noção de que eventualmente os produtos alimentares iriam escassear no comércio, felizmente não foi assim, não tivemos momento nenhum em que o país não encontrasse as soluções para que as pessoas pudessem naturalmente ter os bens essenciais para a vida de cada um e por isso mesmo estas empresas era muito importante que laborassem”, reforçando a ideia de que a Marinhave “só laborou depois de termos um conhecimento profundo da situação e de criar as condições para que as pessoas pudessem ir trabalhar e ter a sua saúde minimamente segura e foi o que aconteceu, tanto que, como sabemos, e este percurso veio a dizer isso mesmo, não tivemos depois mais situações de positivos, o que significa que as medidas tomadas foram extraordinárias, nomeadamente a questão das ZCAPS (Zonas de concentração e apoio à população), que permitiram isolar da comunidade 33 pessoas, foi na minha opinião hoje, e olhando para trás, uma medida extraordinária, que permitiu conter aquele que era um foco.”

Sobre esse momento, o Presidente da autarquia de Benavente, recorda-nos que “naquela altura termos mais de três dezenas de pessoas que estavam digamos que positivas, era podermos criar uma condição extraordinária para disseminar o vírus e criar uma situação que poderia ser caótica no nosso município”, referindo que “felizmente assim não foi, passamos este percurso direi com alguma tranquilidade, com os problemas inerentes, já lamentei aqui a morte de duas pessoas, mas atendendo àquilo que era a perspectiva que tínhamos quando fomos confrontados com este problema, nem o melhor dos optimismos permitia que passado um mês e meio as coisas estavam com esta situação, creio que neste momento normal, nada nos diz que amanhã não possamos ter um outro problema qualquer, estamos a trabalhar para que isso não aconteça, mas creio que ninguém neste país pode dizer que não poderá estar perante um problema como aquele que tivemos aqui.

Nos primeiros dias, e lidando com um vírus proveniente da China, e tendo o concelho de Benavente, uma vasta comunidade chinesa, sobretudo instalada no Porto Alto, foram muitas as vozes que se levantaram para que o município tomasse uma posição sobre a comunidade.
É interessante, se recuarmos a esse momento tivemos algumas posições que naturalmente punham em causa, esta comunidade chinesa…”, começa por nos referir Calos Coutinho, que prossegue, ”recordo-me que nessa altura assistimos a algumas posições de algumas pessoas com responsabilidade, até no município, que levantou exactamente essa situação, quando é necessário termos aquilo que falo, a serenidade, o discernimento, para enfrentarmos as situações, nós temos aqui uma comunidade significativa, recordo também que em Lisboa também houve por parte da população até uma atitude discriminatória relativamente à comunidade chinesa.”

Passados estes dois meses, ou um pouco mais, aquilo que podemos dizer é que esta é uma comunidade que tem um peso significativo no nosso município, mas que ao longo deste tempo que ela está connosco, praticamente nem damos pela comunidade”, salientando que no que diz respeito à situação do Covid-19,”pela sua disciplina, foram dos primeiros a fechar os seus estabelecimentos, foram os primeiros a tomar medidas de protecção para si próprios e para a comunidade, e por isso mesmo nós nunca levantamos a questão dessa forma e acho que bem, e hoje podemos dizer que essa comunidade teve um comportamento extraordinário.
Isto tem muito a ver com a cultura dos povos, e todos nós sabemos a disciplina que o povo chinês tem, que é uma questão cultural…”

Ainda assim, poderia ter existido por parte da comunidade algum contacto com pessoas que vivessem na China e que estivessem contaminadas, mas como nos refere o Presidente da Autarquia de Benavente, “se verificarmos os primeiros a encerrar os seus estabelecimentos foram os chineses… e fizeram de forma consciente e muito antes de todos, procurando e percebendo a dimensão do problema, aliás, por que foi no país deles que teve o seu inicio e portanto com a sua disciplina imediatamente tomaram um conjunto de medidas e de todos os casos não há nenhum caso de nacionalidade chinesa”, concluindo afirmando que “isso também é significativo desse ponto de vista. É de facto uma questão cultural, de modo de estar na vida, que permite esta disciplina tão forte que também aqui foi positiva.

Ao dia de hoje, o facto de no município de Benavente a situação estar dentro do controlo do município é a melhor recompensa, se é que é possível quantificar uma recompensa para um trabalho deste género, algo com que Carlos Coutinho também nos demonstra concordar, “é de facto o melhor resultado do trabalho desenvolvido no combate à pandemia”, referindo ainda que “em determinada altura alguém falava nos rankings do distrito, e nós estávamos posicionados creio que no segundo lugar, se é que este plano tal a sua gravidade se pode medir desta forma, e efectivamente tínhamos um número de casos significativos ao início, lembro-me que houve um dia em que os casos positivos no município representaram 4% dos casos nacionais, isto para percebermos também da nossa parte a forma como fomos vivendo esta situação com apreensão” sendo que hoje, “passado este tempo verificamos que o município de Benavente tem 51 casos identificados, no total desde o inicio, mas que já tem 32 recuperados, que estão hoje já, a maior parte deles, na sua vida activa, a trabalhar, e isto significa algo de positivo também da forma como na comunidade conseguimos, com o esforço de todos, ligar com esta mesma situação.

O número de casos recuperados em Benavente é bastante significativo, algo que o Presidente da sua Câmara Municipal também destaca, “se reportarmos aos números nacional, nós veremos que temos largos milhares de casos que estão confirmados, mais de 26 mil, e os casos curados, perto dos 2 mil. Enquanto nós temos uma relação em que é mais de 50% dos casos curados, o país tem ainda um número muito inferior. Para quem viveu tantos sobressaltos como nós, chegar ao dia de hoje, é algo que obviamente nos satisfaz, naquilo que foi a actuação conjunto neste município.”

Quero destacar aqui algo muito importante, que foi a extrema sintonia com que nós trabalhamos aqui, com a área da saúde, com todos aqueles que aqui estão envolvidos, procurando em grande proximidade tomar as melhores medidas, e isso creio que é algo de muito positivo que fica deste trabalho e que está também para o futuro próximo, pois vamos ter que aprender a conviver com esta situação e agora estamos perante um desafio para todos nós, fomos extraordinários da forma como conseguimos todos pela atitude individual e colectiva contribuir para que os casos não atingissem proporções de grande dimensão, comparativamente com outros países, e portanto agora que estamos progressivamente a fazer este regresso, eu não direi à normalidade, porque não vamos viver em normalidade nos próximos tempos, mas a procurar que todos nós possamos ter uma vida activa e contribuir para que o país possa economicamente também fazer o seu relançamento, digamos assim, e isso é tão importante para o futuro quanto as questões sociais, que estamos a viver e que o futuro nos vai trazer, impõe-nos aqui também uma atitude muito forte” conclui Carlos Coutinho realizando o balanço dos primeiros dois meses da “nova vida” que todos vivemos, agora em comunidade com uma pandemia, que nos assusta, mas com a qual começamos a saber viver.

Nos próximos dias, traremos aqui a opinião do Presidente da Câmara Municipal de Benavente, Carlos Coutinho, sobre a discrepância dos números da Direcção Geral de Saúde, a economia no concelho de Benavente e no país, a Cultura e muitos outros temas que foram abordados na entrevista realizada pela Notícias do Sorraia.